
A reprimarização da economia brasileira, marcada pelo avanço das exportações de produtos primários, sobretudo commodities agrícolas, tem desempenhado um papel central no crescimento do sertanejo universitário como fenômeno cultural.
Essa é a análise do sociólogo Caíque Carvalho, que, em seu livro Sertanejo Universitário, Agronegócio e Indústria Cultural, investiga as conexões entre o gênero musical e o agronegócio, especialmente a partir dos anos 2000, período em que o país passou por profundas transformações em sua estrutura econômica.
O sertanejo universitário emergiu com força na década de 2000, impulsionado pela expansão do agronegócio e pela crescente demanda por mão de obra qualificada no setor. Esse movimento econômico contribuiu para a criação de instituições de ensino superior em cidades médias do interior, formando um novo público jovem e universitário que se identificou com o gênero.
Artistas como João Bosco & Vinícius, que se conheceram em ambiente acadêmico, e Victor & Leo, que trouxeram uma sonoridade moderna ao sertanejo, tornaram-se ícones dessa transformação, refletindo em suas músicas as vivências e aspirações dessa nova geração.
Carvalho enfatiza que o sertanejo universitário se consolidou como um marco cultural ao adaptar suas temáticas às mudanças sociais. Diferentemente do sertanejo tradicional, focado em narrativas de amor e saudade, o novo estilo passou a explorar questões como festas, desapego emocional e a vida contemporânea dos jovens.
Um exemplo emblemático é o sucesso de Luan Santana, que, com hits como Meteoro, lançado em 2009, capturou o espírito de uma juventude conectada ao interior, mas com aspirações globais. Essa evolução, segundo o sociólogo, espelha a modernização do agronegócio e sua influência na cultura popular.
Outro ponto destacado na pesquisa é o papel das feiras agropecuárias como espaços privilegiados para a disseminação do gênero. Esses eventos, que reúnem milhares de pessoas em cidades do interior, funcionam como vitrines para artistas do sertanejo universitário, reforçando a imagem de um agronegócio que combina tradição e jovialidade.
A presença de grandes shows nessas feiras, muitas vezes patrocinados por empresas do setor, ilustra a simbiose entre a indústria cultural e a economia primária, um dos eixos centrais do estudo de Carvalho.
A análise do sociólogo também aborda como essa relação entre música e economia reflete uma aproximação ideológica no século XXI. O sertanejo universitário, ao incorporar valores associados ao agronegócio, como o empreendedorismo e a valorização do interior, tornou-se um símbolo de uma nova identidade cultural. Para o autor, o gênero não é apenas entretenimento, mas um espelho das transformações sociais e econômicas do país, conforme detalhado em sua obra, discutida em diversos fóruns acadêmicos e culturais, como apontado pelo portal de cultura nacional em recente reportagem sobre o impacto do agronegócio nas artes.
Por fim, Carvalho argumenta que entender o sertanejo universitário exige olhar além da música, analisando-o como um produto da reprimarização econômica e da reconfiguração do espaço rural. Essa perspectiva oferece uma leitura inovadora sobre como setores aparentemente distintos — cultura e economia — podem se entrelaçar para moldar a identidade de uma nação no contexto contemporâneo.
Com informações de cartacapital.com.br.
Fonte: Google Notícias
Publicado originalmente em: 2026-04-05 14:42:00